Comecei a trabalhar, efetivamente, no segundo ano da faculdade. Antes disso, trabalhava com meu pai, meio período, mas não posso considerar isso um emprego, né? Meu primeiro estágio foi em uma empresa que fabricava argamassas, produtos cimentíceos em geral. Eu estudava Arquitetura na Belas Artes, uma das faculdades mais caras de São Paulo, na época. Lá eu me sentia dentro do filme "As patricinhas de Beverly Hills", (hoje seria Gossip Girl) dá pra imaginar, né? Aquele mundo já não era pra mim, e para completar, eu trabalhava em meio à poeira de cimento e areia, chegava na faculdade suja, suada, exausta e horrorosa. Mas isso não era lá um grande problema. Sabem qual eram as minhas funções no estágio?
1) Colar bolinhas de amostras de argamassa em uma plaquinha de acrílico. Sim, eu passava dias colando aquelas bolinhas coloridas - que eram feitas em forminhas tipo essas de ovo de páscoa - em placas que depois eram distribuídas nas lojas e serviam como mostruário de cores. Eu, que sempre tive rinite e bronquite, ficava alí colando bolinhas de cimento. Jóia.
2) Eu enfiava sacos e mais sacos de argamassa no porta-malas do meu carro (um corsa, na época) e saía para fazer entregas. Muitas vezes os caminhões da empresa não davam conta do recado, a estagiária-otária tinha que fazê-lo. Teve um dia que fui entregar um material no apartamento de uma arquiteta metida no Pacaembú. Demorei mais de uma hora só para entrar no prédio, tamanho era os esquema de segurança. Subi, falei com ela que estava ali para entregar a argamassa e questionei se ela não teria um funcionário para disponibilizar a me ajudar e subir com o material. A louca fez um escândalo, disse que se eu tinha ido entregar, eu deveria levar, que era função minha. Falou mais um monte de desaforos, dentre eles "você sabe com quem está falando: eu sou arquiteta!" Oooi?? Preferi nem discutir, desci, peguei os sacos de 25 kg cada no braço (na época eu pesava 42kg), levei até o elevador, subi chorando até o apto, abri a porta, olhei para a cara dela e joguei os sacos. Ela não disse nada, só me olhou ir embora.
3) Eu acompanhava obras. Pfff... que piada. Acompanhei a execução de uma lavagem de fachada, em um prédio que ficava num bairro de periferia. Ganhei uma porção de riscos propositais no meu já judiado corsa, tipo uma obra de arte mesmo. Passei exatos 3 meses, sentada num banco, olhando para cima, vendo pessoas lavando uma fachada montadas em balancins. Três meses, sentada, sem fazer nada! Muito pior que fazer coisas sem importância é não ter nada para fazer.
Sabem quanto tempo eu fiquei nesse estágio? 2 anos! Eu aguentei firme, apesar de tudo. Eu fazia faculdade de arquitetura, que era o sonho da minha vida, o que eu mais amava, e naqueles tempos não entendia onde estava o glamour da profissão, visto que tudo o que eu fazia era carregar sacos de cimento e colar bolinhas. Eu não projetava, eu não acompanhava obras, eu não era uma arquiteta de verdade. Ter ficado alí todo esse tempo me ensinou muitas coisas, mas, honestamente, eu me arrependo muito. Se fosse hoje, teria ficado 2 dias. Perdi a chance de estagiar em empresas que pudessem me ensinar algo verdadeiramente relacionado à arquitetura e, quando decidi fazê-lo, já estava no penúltimo ano da faculdade.
De qualquer forma, de tudo o que nos acontece na vida, sempre há uma lição maios e, por incrível que pareça, aprendi muito naquele lugar. A gente aprende mais nas situações difíceis, a gente cresce, a gente se vira. Lá eu aprendi que não há nada de glamouroso em ser arquiteta e, ainda assim, amo minha profissão. Lá eu aprendi a ter iniciativa, aprendi a me impor e conquistar o respeito das pessoas sendo honesta e direta.
Hoje, quase 10 anos depois, trabalho com o que gosto, sou respeitada pelo que faço e sinto-me plenamente satisfeita. Nunca pensei em abandonar a arquitetura, porque ela nasceu comigo, mas aprendi que, quando a gente quer muito uma coisa, não pode deixar que ninguém nos diga o contrário. Aprendi que, com esforço e muito trabalho, se consegue dignidade e satisfação no trabalho sim, basta querer. E que a gente precisa saber a hora de esperar e a hora de mudar, sem medo.





Arquiteta. Fashionista. 29 anos. Casada. Extremamente otimista. Consumista. Chatinha. Metódica. Nerd assumida. A little bit Monica Geller.

























































