Há tempos venho querendo escrever sobre um assunto aqui no blog mas sempre desisto. Desisto porque aqui tento fazer com que tudo seja
sempre leve e tranquilo, deixo os assuntos sérios e pesados para situações onde não possa fugir deles. Além disso eu tenho a impressão de que, contando isso, posso estar sendo
apelativa ou gerando questionamentos. Sabe aquelas histórias que parecem filmes? Roteiros cheios de maluquices, situações bizarras e improváveis? Pois é, é assim minha história de hoje. E vocês vão ler e aposto que vão pensar "
ah tá, isso ela inventou, certeza absoluta". No final eu conto se é tudo verdade mesmo ou se é fruto da minha imaginação fértil, ok?
A história é longa, vou logo avisando. Ainda que eu tente resumir, para me fazer entender, preciso escrever bastante, portanto
preparem um balde de pipocas e bóra lá...
Meus pais nasceram e se criaram no
Paraná. Minha família vive toda lá, só nós viemos para São Paulo. Por esse motivo, todos os finais de ano e comemorações são passados lá, com a família toda reunida, tios, tias, primos, avós, sobrinhos, cachorro e papagaio. Eu tenho 29 anos, portanto, passei 29 natais lá. A cidadezinha onde minha avó mora se chama
Alto Piquiri, bem pro norte do Paraná, quase já na divisa com o
Paraguai.
Tá, daí era dia
29 de dezembro de 2003,
aniversário do meu pai. Nós fizemos uma festinha simples, bolo, doces e refrigerante. Meu pai é um palhaço e a gente se divertiu horrores. No dia seguinte resolvemos fazer uma visita ao
cemitério da cidade onde foram sepultados meu avô, um tio e um primo. Lá tem
pés de manga que meus primos adoram. Eu tenho nojo de chupar manga que nasce em pé de cemitério, mas isso não tem nada a ver com o assunto, foi só para desabafar mesmo. Então lá fomos nós para o passeio macabro (e que ficaria ainda pior).
Meu pai tinha acabado de comprar uma
Nissan Frontier. Um desses carros que os homens que viveram em fazenda e sítios adoram ter. Era o sonho da vida dele, trabalhou muito por isso e finalmente conseguiu. O que a Nissan tem a ver com o cemitério? Por incrível que pareça,
tudo. Fomos eu, meu pai, minha mãe, minha tia, minha prima e meu cachorro (
Atreio, aquele que aparece por aqui de vez em quando - ele está em todas). Estávamos lá fazendo nossas orações quando entram dois homens com camisetas amarradas aos rostos, armados e pedindo a chave do carro. Eu ri. Não, eu não sou imbecil, eu só pensei que pudessem ser meus primos nos pregando uma peça. Porque, né... Alto Piquiri tem uns 10 mil habitantes, lá não acontece nada, quem é que ia imaginar um assalto num cemitério?
Mas não é que era verdade? Naquele momento estávamos nós, dentro de um cemitério, com 2 homens armados e um pânico geral se instalou. O cara pede a chave do carro, meu pai dá. Minha mãe grita "
Pelo amor de Deus, meu cachorrinho está no carro, deixa eu pegar ele". Hahahaha... seria hilário se não fosse trágico, ela pensou primeiro no cachorro. Ok. O fulano diz "
Calma, tia, ninguém vai levar o carro a lugar algum, vocês vão junto". Oi, calma aí, comoéqueé?? Vamos juntos? Porra, eu não posso ser sequestrada dentro de um cemitério, cara, que negócio mais
trash. É, mas eu fui. Quer dizer, nós fomos.
Antes disso, para piorar - é, porque a situação tava
sussa, né? ainda dava pra ficar um pouquinho pior - entra uma garota de bicicleta no cemitério. Os bandidos-malvados-
and-encapuzados pensam "
fudeu, vamo ter que levar a guria junto". Ah, beleza, pensei eu, já tá tudo ferrado mesmo. Não, não estava. A guria era
surda e muda. Tô falando sério.
Lá fomos nós, a família (in)feliz, num carro onde estávamos eu, minha mãe, minha tia de Curitiba, minha prima de Foz do Iguaçu, meu pai, meu cachorro, dois bandidos malvados e uma garota desconhecida e surda-muda. Olha que beleza, que maravilha, que coisa mais sinistra. Passamos hoooooooooras rodando por estradas de terra, num zigue-zague sem fim. Atreio dormiu no meu colo. Nessas horas é bom ser cachorro porque você não manja nada da situação e acha que está só dando um rolê. Os
foras-da-lei disseram que só queriam o carro, porque era importado e coisa e tal. Mas no meio do caminho pararam e mandaram a gente descer. Daí a sempre otimista aqui pensou "
ô loco, vou morrer com um tiro na testa no meio do nada, puta que pariu, que final mais mequetréfe pruma vida tão legalzinha". Não foi dessa vez. Eles queriam anéis, brincos, pulseiras, alianças e tudo de valor que nós tínhamos. Meu amigo, numa altura dessas, leva o que você quiser, mas amanhã é
ano novo e eu tava numas de querer comemorar, será que dava? Não deu.
A gente passou um dia e uma noite com eles. Fomos parar num casebre no meio de uma fazenda, tipo
s filme de terror mesmo. Tinha cavalos.
Atreio latiu pros cavalos. Sim, porque o problema eram os cavalos, os caras com as armas eram bonzinhos (
nota: poodles não são bons cães de guarda). Aí ficamos lá, sentados dentro daquele lugar sinistro, e começa um temporal. Sabe temporal? E o telhado tava cheio de telhas quebradas. Aham. Apareceu mais um fora-da-lei - esses caras se multiplicam. Depois saiu ele e mais um e foram levar o carro pro Paraguai porque diz que lá é facinho de vender. O outro ficou "cuidando" de nós todos. Hooooras e mais horas se passaram até que eles ligaram pro celular do cara que estava com a gente avisando que a barra estava limpa. Daí o cara diz "
Olha só, pessoal, é o seguinte, deu tudo certo, eu vou liberar vocês. Vou sair agora e vocês esperam uma hora, depois podem sair e procurar ajuda. A propósito, o senhor tem algum CD do Bruno e Marrone no carro, eu estava querendo ouvir". Oi?
Bandido sertanejo, era só o que me faltava.
Nessas a gente saiu cinco minutos depois e fomos nos esconder no meio do mato. Quem em sã consciência fica lá tranquilo esperando por uma hora? Eu hein. Minha tia não queria se sentar no chão pra se esconder porque ela estava de
bermuda branca e ia sujar. Hahahahaha... ai, Jesus. Tempos depois o dia começou a amanhecer e tivemos coragem de sair e buscar ajuda. Fomos andando por umas estradinhas de chão batido seguindo o som de carros que vinha de longe. Chegamos em uma estrada e pedimos carona para um caminhoneiro que parou e disse "
Vocês são a família sequestrada?". Ó, ficamos famosos! rs...
E é basicamente isso. É nada, tem mais. Daí a gente foi parar na delegacia, fizemos B.O., vimos milhares de fotos para tentar identificar os suspeitos, essas coisas de praxe. Fomos para casa acalmar uma família insandecida e desesperada e passamos a virada do ano dormindo, quietinhos e em paz. Meses depois fomos chamados para prestar esclarecimentos, o que significa, na verdade, contar tudo de novo para outro delegado. Por quê? Ora, muito simples, porque o delegado que fez o nosso primeiro B.O. era
o chefe da quadrilha de sequestradores. Rá!
Agora sim acabou.
Consequências desse dia:
1) Tenho pavor de cemitério e não é por causa dos mortos.
2) Vendemos a casa onde morávamos e fomos morar em um apartamento, que é mais seguro. Mas depois voltamos para uma casa, o trauma passou rápido.
3) Nunca subestimem uma cidade pequena, acontecem coisas sinistras nesses lugarejos também.
4) Fiquei amiga da mocinha surda-muda que foi sequestrada conosco. O pai dela havia falecido uma semana antes do ocorrido e ela acabou passando por esse perrengue todo porque estava no lugar errado, na hora errada.
5) Eu e minha prima criamos um laço muito forte depois de todo o acontecido. Ela é quase minha alma gêmea.
6) Naquela noite dentro da casinha em ruínas, debaixo do maior temporal, meu pai me disse um "
eu te amo, filha" pela primeira vez. Não que eu não soubesse do amor dele, mas ouvir foi muito bom.
E, para terminar: sim, parece mentira, parece lorota, parece filme de terror americano com roteiro sem-pé-nem-cabeça, mas é
tudo verdade. Cês acreditam? rs...